A riqueza que está no topo

 

Projeto internacional pretende desvendar mais de 13 milhões de espécies e processos biológicos, ainda desconhecidos, que existem no topo das árvores.

O topo das florestas tropicais está entre as últimas fronteiras da ciência. A porção superior das árvores, chamada de dossel, abriga, segundo a estimativa da professora adjunta do Departamento de Genética da Universidade Federal de Pernambuco, Ana Maria Benko-Iseppon, 6 milhões de insetos, 7 milhões de aranhas, 500 mil vermes, 200 mil crustáceos e 30.000 espécies de plantas. Um projeto internacional, envolvendo Alemanha (Universidade de Leipzig) e Brasil (Governo de Pernambuco), objetiva transformar o interesse, mantido há meio século pelos cientistas, em ação.

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O chamado Programa Dossel Global (do inglês, Global Canopy Programme), orçado em 800 mil euros, objetiva instalar observatórios, usando guindastes ou gruas, capazes de carregar quatro pesquisadores até o topo da mata sem afetar os processos biológicos e sem a necessidade de desmatamento. O tempo previsto de estudo é de 20 anos. “Apesar de possuir as mais extensas e ricas matas tropicais do planeta, o Brasil ainda não tem nenhum projeto com este tipo de equipamento”, alerta Benko-Iseppon, coordenadora do projeto no Brasil. Dez observatórios similares estão em funcionamento na Indonésia, na Austrália, na América Central, na Venezuela e em Madagascar.

O Governo do Estado de Pernambuco, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, está firmando uma cooperação técnico-científica pioneira no país entre Universidade de Leipzig, na Alemanha, e as universidades Federal (UFPE) e Rural (UFRPE) para implantar em breve um dossel no Parque do Horto de Dois Irmãos.

A escolha do local levou em consideração o fato de se tratar de uma mata urbana, com facilidade de acesso e de instalação para o início dos trabalhos. “A preservação da reserva de Mata Atlântica do Horto de Dois Irmãos, além do fácil acesso, se prestará a um menor custo de implantação do projeto, facilitando o treinamento dos pesquisadores nacionais e estrangeiros além de propiciar uma visão dos processos que afetam uma mata em região sob forte pressão humana”, justifica o secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco, Cláudio Marinho.

A versão final do Programa Dossel Global está sendo aprovada ainda este mês na Alemanha, sob a coordenação do professor Wilfried Morawetz, da Universidade de Leipzig, responsável pelo projeto no exterior. Após a instalação, prevista para julho de 2004, a pesquisadora pretende convocar instituições nacionais e internacionais para integrar um laboratório aberto, desenvolvendo estudos sobre os mais diversos organismos e aspectos com livre troca de informações.

“O mais importante em um projeto como este é desvendar os processos que regem o ecossistema que, hoje se sabe, é da maior importância para o equilíbrio dos eventos climáticos em nosso planeta”, finaliza a professora.

Raquel Lima – Jornalista. Revista Eco 21, Ano XIII, Edição 32, Outubro 2003. (www.eco21.com.br).