Ambiente Biotecnologia

Preocupações de sanidade vegetal no país

Nas últimas décadas, o Brasil vem se tornando cada vez mais competitivo nas exportações de frutas, soja, carnes e produtos florestais. Contudo, muito ainda será preciso fazer para a obtenção de níveis adequados de sanidade em seus produtos “antes da porteira”.

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Nas últimas décadas, o Brasil vem se tornando cada vez mais competitivo nas exportações de frutas, soja, carnes e produtos florestais. Contudo, muito ainda será preciso fazer para a obtenção de níveis adequados de sanidade em seus produtos “antes da porteira”. Produtos com níveis fitossanitários elevados auxiliam o país a competir no mercado internacional, colaborando por sua vez, na economia interna ao produzir mais empregos, melhoria na qualidade de vida de seus habitantes e oferecendo mais oportunidades para a agricultura familiar.

O tamanho continental do país associado à extensa fronteira, clima tropical e vegetação exuberante colabora para a dificuldade em barrar a entrada e estabelecimento de pragas no país. O aumento da velocidade dos meios de transporte, troca de mercadorias e movimentação de pessoas são, também, elementos importantes nesse cenário contribuindo para essa invasão biológica de pragas no país.

Nos últimos anos, pragas de grande expressão econômica foram introduzidas no território brasileiro. Algumas delas se dispersaram para diferentes regiões e outras continuam em áreas restritas, sendo oficialmente controladas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Outras pragas introduzidas em décadas anteriores continuam a ser problema em áreas do sistema produtivo.

A mosca-branca, Bemisia tabaci , é um dos exemplos a ser citado. No inicio da década de 90, altas populações de B. tabaci foram relatadas na região de Campinas SP, ocorrendo em tomateiros. As características conhecidas de ataque do inseto levaram a suspeita de que a raça B de B. tabaci , até então ocorrendo em outros países das Américas havia entrado naquela região. A introdução inadvertida da praga, provavelmente ocorreu por meio do transito internacional de passageiros ou pelo comércio internacional de plantas ornamentais ou de partes de plantas. Desde então, a mosca-branca já está presente em 23 dos 27 estados da federação, provocando danos diretos e indiretos superiores a R$ 20 bilhões, nos últimos anos. As principais culturas atacadas são: feijão, tomate, algodão, melão, melancia, pepino, pimentão, soja, maxixe, abóbora, couve, couve-flor, jiló, maracujá, brócoli, quiabo, repolho, poinsétia e crisântemo.

Além da atuação como praga essa espécie é, também, vetor de fitopatógenos, como o Bean golden mosaic vírus (BGMV), conhecido como a praga mais devastadora da cultura do feijão na América Latina e que causa perdas de até 75% no Brasil. Recentemente, um carlavírus também transmitido pela mosca-branca, foi descoberto atacando plantas de melão, na região nordeste do país.

O cancro-da-haste da soja, causado pelo fungo Diaporthe phaseolorum foi identificado pela primeira vez em 1989, provocou sérios danos à cultura da soja, com perdas estimadas em até 100%. Atualmente essa doença está parcialmente controlada graças ao desenvolvimento de variedades resistentes.

O cisto da soja, causado pelo nematóide Heterodera glycines, foi introduzido no país em 1992, apresentando na ocasião uma área infestada de 10.000 hectares. Atualmente a área infestada oscila em torno de 1 milhão e setecentos mil hectares com perdas acumuladas equivalentes a 150 milhões de dólares, representando até hoje uma ameaça para a cultura da soja.

A sigatoka negra causada pelo fungo Mycosphaerella fijiensis causou, em 1998, uma severa epidemia em diversas cultivares de banana, no estado do Amazonas. A doença encontra-se, atualmente, distribuída em diversas regiões do país e é responsável por perdas de até 100% da cultura na ausência de medidas de controle.

A ferrugem da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyhizi foi identificada no Brasil em 2001, no Paraná e atualmente a doença já atingiu diversos estados no país causando sérios danos à cultura da soja.

O cancro cítrico, causado pela bactéria Xanthomonas campestris pv citri i foi introduzido no país em 1957, gastando-se na época 5 milhões de dólares para tentar a sua erradicação, sendo que a bactéria continua presente no estado de São Paulo e em outros estados, necessitando-se continuamente de recursos para manter esta praga sob controle em áreas restritas.

O bicudo do algodoeiro, Anthonomus grandis, quando introduzido no país pelo estado de São Paulo, em 1983, causou grande impacto na economia nacional mas, principalmente na região nordestina, que passou do papel de um dos maiores exportadores mundiais de algodão para o de maior importador. Somente depois de 20 anos, com o auxílio da pesquisa científica é que o país voltou a exportar algodão.

A lagarta-minadora-dos-citros, Phyllocnistis citrella foi introduzida no Brasil, na metade da década de 90, apesar do alerta feito por pesquisadores. A introdução da praga ocorreu pelo estado de São Paulo, tendo sido detectada em pomares de citros. Sua dispersão ocorreu rapidamente para as regiões norte, nordeste, sudeste e centro-oeste do país. Ela causa danos na planta, consumindo áreas foliares, provocando perdas quantitativas. Durante a alimentação, favorece a infecção dos tecidos pela bactéria, Xanthomonas citri (cancro cítrico). Várias espécies de citros podem ser atacadas pelo inseto.

O gorgulho-aquático-do-arroz, Oryzophagus oryzae foi introduzido, provavelmente, no estado do Rio Grande do Sul, proveniente da Argentina ou Paraguai. O ataque do inseto ocorre em áreas de arroz irrigado, sendo que na região sul as perdas vão de 10 a 25% da produtividade com estimativa potencial de US$ 24 milhões ao ano.

A broca-do-café, Hypothenemus hampei foi registrada oficialmente no Brasil, pela primeira vez em 1924. O inseto tem comprometido a produção e a produtividade do cafeeiro, onerando os custos de produção e comercialização.

Esses são alguns exemplos da entrada inadvertida ou não, no país e as conseqüências dessas introduções. Esses problemas levam a refletir sobre os grandes desafios a serem vencidos no setor agrícola brasileiro com o auxílio da defesa agropecuária e a ciência e tecnologia de modo a colocar o país em situação favorável frente ao comércio internacional.

Entre as tendências do comércio internacional de produtos agrícolas está a demanda por alimentos saudáveis e de qualidade. Os reflexos dessas exigências apontam para a importância da produção agrícola, em nível de campo, em conformidade com os padrões fitossanitários considerados ideais.

Maria Regina Vilarinho de Oliveira Pesquisadora, Doutora e-mail: vilarinho@cenargen.embrapa.br Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia



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