Reúso da Água

Segundo Borges (2003) historicamente registram-se práticas de reúso referentes às antigas civilizações, sobretudo na Grécia, onde os efluentes eram usados para irrigação nas agriculturas. No entanto, somente a partir do século XX surgiram as primeiras regulamentações sobre o tema. A prática do reúso se processa de forma direta, quando o efluente, após tratamento é utilizado no ponto de aplicação. Também pode ocorrer de forma indireta quando o efluente é aplicado após a passagem por um curso d’água. O reúso ainda pode ser planejado, quando atende as exigências ambientais e sanitárias, sendo esta a forma mais adequada da sua aplicação. A Tabela 01 apresenta as principais formas de reúso e suas características.

Tabela 01- Formas de uso e reúso e suas características
Tabela 01 – Formas de uso e reúso e suas características.

Por sua vez, nas áreas urbanas o reúso está mais freqüentemente associado à reciclagem da água nas edificações, sejam elas residenciais ou industriais. Neste contexto, destaca-se a água cinza, oriunda principalmente de chuveiros, lavatórios e máquinas de lavar, cujo emprego se aplica para fins não potáveis. Entretanto, mesmo para usos não potáveis a qualidade sanitária precisa ser garantida por meio de tratamento adequado. Uma pesquisa desenvolvida por Rose et al. (1991) revelou que organismos patogênicos são liberados na água do banho e da lavagem de roupas. Também, micro-organismos patogênicos podem estar presentes na água da lavagem de alimentos crus como carnes e vegetais (ALLOS and TAYLOR,1998). Portanto, em face às elevadas concentrações de micro-organismos encontrados na água cinza, apresenta-se na Tabela 02, alguns dos principais riscos à saúde associadas a presença de tais microorganismos.    

Formas de uso e reúso e os riscos à saúde
Tabela 02 – Formas de uso e reúso e os riscos à saúde.   

A definição do tipo de tratamento para a água cinza deve considerar principalmente a grande variação de vazão em períodos curtos de tempo e a elevada biodegradabilidade. Os processos utilizados para tratar água cinza são semelhantes aos utilizados em estações de tratamento de esgoto sanitário. Entretanto, cabe ressaltar que as exigências quanto a qualidade do efluente são muito superiores, sobretudo quando se trata de reúso em edificações. Para produzir água de reúso inodora e com baixa turbidez, uma estação de tratamento deve ser composta pelo menos, dos níveis primário e secundário de tratamento. Por outro lado, para se assegurar baixas densidades de coliformes totais e termotolerantes, o tratamento deve prever desinfecção e, portanto, é fundamental o tratamento a nível terciário. A Universidade Federal do Espírito Santo – UFES desenvolveu projeto de pesquisa contemplando os processos aeróbios e anaeróbios em série, conforme fluxograma da Estação de Tratamento de Água Cinza – ETAC, referente a um empreendimento hoteleiro.   

Conforme Gonçalves (2006), a ETAC é composta de reator anaeróbio compartimentado – RAC, associado a um Filtro Biológico Aerado Submerso – FBAS. O polimento é feito através de um Filtro Terciário de Tela – FT e a desinfecção com pastilha de cloro. O autor relata ainda o trabalho desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, em uma residência unifamiliar, cujo sistema de tratamento é composto de: caixa receptora de água cinza, filtro de brita aeróbio intermitente, uma caixa de passagem para desinfecção com cloro, um reservatório de água cinza e um tanque de mistura de água cinza tratada e água de chuva.

As práticas de reúso da água no Brasil relacionam-se de forma mais efetiva aos setores industriais e comerciais, haja vista as dificuldades estruturais de fiscalização anteriormente citadas e ao incremento no custo final da edificação. Os setores acadêmicos, de diferentes áreas do conhecimento, têm se dedicado frequentemente às pesquisas sobre o reúso da água nas edificações, a fim de desenvolver tecnologias apropriadas para a implantação destes sistemas.
Os critérios de conservação da água se apresentam como um caminho para a almejada sustentabilidade dos recursos hídricos. Neste contexto, o uso racional da água nas edificações e as fontes alternativas, aparecem como mecanismos de preservação e conservação deste recurso natural.

O desenvolvimento de leis que estimulem tais práticas é fundamental para a obtenção do sucesso pretendido, entretanto é necessária a observação aos aspectos técnicos, sanitários e ambientais, entre outros que envolvem o tema, sob o risco da formulação de legislações inadequadas ou inexequíveis. Outro fator de suma importância diz respeito à fiscalização, é necessário que paralelamente ao desenvolvimento de legislações, sejam estabelecidos critérios e mecanismos de controle dos sistemas de uso e reúso da água de forma a evitar riscos à saúde pública e danos ao meio ambiente.

Com relação a implantação de sistemas de reúso da água e uso da água de chuva, cabe aos profissionais das áreas de atuação específicas a responsabilidade quanto ao desenvolvimento de sistemas seguros do ponto de vista sanitário e de abastecimento e que contemplem a preservação ambiental e a viabilidade econômica. Quanto aos sistemas de reúso das águas servidas, estes ainda são considerados de implantação complexa, a nível de edificações residenciais, tanto em função dos aspectos técnicos quanto aos fatores econômicos, em virtude do custo de implantação e manutenção das estações de tratamento.

Por sua vez, o aproveitamento da água de chuva caracteriza-se pela facilidade da composição do sistema, devido a simplificação do tratamento, fato este que implica na redução dos custos de implantação e manutenção. A associação de sistemas, de reúso das águas servidas e aproveitamento da água de chuva apresenta-se interessante do ponto de vista da conservação da água. O abastecimento de bacias sanitárias através das águas recicladas aponta para uma economia significativa de água potável e ainda contribui para redução do volume de esgoto gerado na edificação. Por outro lado, a aplicação da água de chuva para usos externos da edificação, ou seja, a irrigação, limpeza de calçadas, pátios e veículos, além da economia de água potável propicia o retorno das águas pluviais para a bacia hidrográfica, via sistema de drenagem urbana, reduzindo, assim, as interferências em tal bacia.