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Embrapa faz enzima inseticida para algodão transgênico

O algodão receberá um gene capaz de produzir uma enzima inseticida que o tornará resistente ao bicudo do algodoeiro. Por causa do inseto, o Brasil saiu da condição de um dos maiores exportadores de algodão para a de maior importador, na década de 80. A pesquisa é conduzida pela agrônoma, especializada em biologia molecular, Roseane Cavalcanti, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O objetivo, segundo a pesquisadora, é oferecer aos produtores uma tecnologia que reduza os custos de plantio.

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O foco da pesquisa de Roseane, desenvolvida na Embrapa Algodão em parceria com a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), está centrado na tolerância ao bicudo por ser uma das principais pragas da cotonicultura. O agricultor destina 40% dos custos do plantio à compra de defensivos. Com o custo de US$ 1.000 para cada hectare plantado de algodão, o gasto médio com defensivos é de R$ 1.100. "A perspectiva é reduzir os custos com a adoção de variedades geneticamente modificadas. Veja que isso é o custo médio de um produtor que use sementes boas e fertilizantes adequados. Há casos em que se gasta ainda mais", afirma a pesquisadora.

“A pesquisa está baseada na identificação e isolamento de um gene que codifica para uma enzima com potencial inseticida”, detalha Roseane Cavalcanti dos Santos, pesquisadora da Embrapa Algodão, que defendeu tese de doutorado sobre o algodão transgênico no ano passado na UnB. Segundo ela, a enzima é tóxica para o inseto porque ataca o colesterol de suas membranas intestinais, interferindo no crescimento e levando-o à morte.

“A enzima, coletada de uma bactéria de plantas, já se mostrou atóxica contra mamíferos, em testes conduzidos anteriormente. Posteriormente o gene inseticida será introduzido em plantas de algodão. Essa pesquisa traz uma perspectiva animadora para o controle desse inseto, que no momento é feito com aplicações massivas de inseticidas químicos, onerando o sistema de produção e poluindo o meio ambiente”, acrescenta Roseane.

A pesquisadora conseguiu isolar cerca de 50% do gene com previsão para isolar a parte restante no final de 2004. “A partir daí, serão iniciados os testes de introdução da seqüência codante do gene na planta e posteriores ensaios relativos ao potencial inseticida da nova planta melhorada sobre os insetos. O resultado dessa pesquisa será de grande repercussão para o soerguimento definitivo da lavoura algodoeira no Brasil.

Em termos econômicos, a redução com o uso de inseticidas será significativa considerando--se que dos cerca de US$ 2,5 bilhões investidos em agrotóxicos em 2002, foram destinados 28% para compra de inseticidas”, destaca. O Brasil gasta atualmente cerca de US$ 900 milhões para o controle de insetos do algodão. O bicudo é um inseto com grande capacidade reprodutiva. Durante um ciclo do algodoeiro, que fica entre 150 e 160 dias, o bicudo pode reproduzir até seis vezes, de modo que, no campo, podem ser encontrados cerca de 500 mil insetos por hectare. Os prejuízos na produção ocorrem porque o bicudo se alimenta e coloca seus ovos em botões florais novos, elevando o percentual de queda de frutos.

Em 2000, ao desenvolver tese de doutorado na Universidade de Brasília (UnB), Roseane identificou o gene que produz a proteína chamada colesterol oxidase, uma enzima que ataca o intestino do besouro, prejudicando seu crescimento. A proteína é naturalmente produzida por uma bactéria que ataca plantas, a Streptomyces. A fase, agora, é de isolamento do gene, etapa com praticamente 90% de conclusão. "Com essa etapa concluída, vamos inserir o gene na planta", conta Roseane.

O grupo de pesquisadores fez testes de biossegurança e avaliou a ação da enzima no organismo de camundongos. Testes preliminares realizados em 2002 indicaram que não houve alteração nem no fígado, nem nos rins, nem no intestino dos roedores que receberam a enzima em seu código genético. "Isso abre o precedente para que consideremos a proteína inofensiva. Ou seja, é de se esperar que a proteína não faça mal ao homem", conclui. Segundo Roseane, isso se explica porque as enzimas digestivas do animal têm o poder de quebrar a proteína, tirando sua função.

A validação da segurança com o uso da tecnologia, no âmbito da saúde humana, é necessária porque o algodão entra na cadeia alimentar humana. Animais como cabra, ovelha e boi se alimentam do farelo de algodão e da torta, produzida com restos de semente e casca de algodão. "Avaliamos os camundongos e os filhos dos camundongos modificados e não houve alteração fisiológica", disse Roseane.

Os próximos testes de biossegurança serão feitos no próximo semestre, com as abelhas. Principal agente polinizador do algodão, a abelha seria, potencialmente, um transporte para o gene da proteína a outras espécies. Roseane alerta, no entanto, para o resultado de algumas pesquisas que demonstraram haver redução de 70% no cruzamento entre espécies diferentes de algodão, quando houve separação superior a 20 metros. A constatação foi feita com espécies melhoradas pelo sistema convencional. "Cabe ao agricultor fazer as barreiras naturais, caso adote uma tecnologia como a do algodão transgênico. Afinal, com as variedades melhoradas disponíveis hoje, já se faz assim, para diminuir o risco", observou.

O Brasil gasta cerca de U$ 900 mil no controle de insetos que atacam o algodão. Sua planta é uma das preferidas de insetos e ácaros, porque suas flores são vistosas, coloridas e grandes. Além disso, os botões florais, maçãs e depósitos de néctar são suculentos, chegando a produzir uma quantidade de açúcares solúveis superior a de outras espécies vegetais. Apesar de ocupar menos de 2% da área plantada com todas as culturas, no mundo, a cultura do algodão é a que mais consome inseticidas para se obter boa produtividade. Em torno de 25% de todo o inseticida usado pelo homem na agricultura vai para a cotonicultura.

 

Fontes:Dalmo Oliveira - Jornalista Eco 21 Ano XIV - nº 93 - Agosto - 2004; www.eco21.com.br; memoria.ebc.com.br



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