O Sol não manda a conta

 

A energia fotovoltaica resulta da transformação direta da luz em energia elétrica por meio de células geralmente à base de silício. Para obter um potencial suficiente, as células devem estar associadas entre si para constituírem um painel solar. Como os painéis fotovoltaicos produzem correntes contínuas (como as pilhas), é necessário convertê-las, com ajuda de um conversor, em corrente alternativa (comparável àquela que alimenta os aparelhos de televisão, os computadores, as geladeiras, etc.).

Esta tecnologia fotovoltaica desenvolvida para os satélites artificiais tornou-se uma solução eficaz para alimentar com eletricidade as residências, em particular os sítios isolados. Tem uma grande utilidade em diversas aplicações, como, por exemplo, nas telecomunicações, no bombeamento de água, na iluminação pública, etc.
Há alguns anos, certos países da Europa empenharam-se em políticas visando acelerar o acesso à rentabilidade dos sistemas fotovoltaicos. Por exemplo, Freiburg, na Alemanha, já possui cerca de 10 mil telhados com painéis solares. Não são painéis de aquecimento, e sim fotovoltaicos. O governo alemão está programando chegar a 100 mil telhados, pois quer que cada um funcione como uma usina elétrica.

Por estar produzindo energia, pode oferecer financiamento com juros baixos. Os credores têm 4 anos para pagar suas células fotovoltaicas, cuja garantia é de 25 anos. Depois dos 4 anos, só há lucro; não há mais nada a pagar. Uma casa de 2 quartos, com um telhado médio, gera mensalmente 400 marcos de energia solar. O gasto mensal da residência é de 100. Os 300 marcos que sobram são vendidos para a rede. É essa renda extra que vem convencendo cada vez mais pessoas a transformar seu telhado numa usina solar. Isso é possível porque o governo alemão acaba de obrigar as companhias de energia a comprarem, por lei, durante os próximos 20 anos, toda a energia solar produzida, pagando um preço três vezes maior do que aquele que cobra dos seus clientes. Há alguns anos já existe o “Programa dos 100 mil telhados”, que dá crédito barato a todos que querem investir em energia solar.

 

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As pessoas estão mais do que felizes, pois seu telhado está rendendo dinheiro. Se deu certo na Alemanha, por que não daria certo no Brasil, país do Sol?

A Universidade de Stuttgart desenvolveu um novo tipo de célula solar 50 vezes mais fina que um fio de cabelo. Os estudantes usam as células flexíveis em chapéus e paletós, empregando-os para carregar seus celulares. Já estamos, portanto, perto de uma revolução da energia.

Há um prédio que gira de acordo com a posição do sol. No verão, quando o sol é muito intenso, ele vira para o lado oposto. É uma verdadeira arquitetura solar. No bairro onde as casas têm painéis solares, as cores são muito vivas. É uma beleza. Já existem 130 casas assim. Há um estádio de futebol cuja cobertura é toda feita com painéis solares. Eles captam a energia e a conservam, a fim de usá-la à noite. A própria igreja também já tem seu telhado com energia fotovoltaica. Há, também, na Alemanha, um barco solar.

Nos EUA, mais de 20.000 residências utilizam a energia fotovoltaica, sendo que 4.000 no Estado da Califórnia.
À beira do mar, em Castrium, na Holanda, existe uma residência equipada com 23 metros quadrados de painéis fotovoltaicos integrados ao telhado, com uma potência de 2,5 kW. Os seus moradores vivem confortavelmente sem estar conectados à rede elétrica convencional. Não têm nada para pagar no fim do mês, pois o Sol não envia contas.

No Brasil, as iniciativas estão voltadas para as comunidades isoladas que vivem em pleno Século 21 como se estivessem ainda no Século 19 com relação à energia elétrica. Assim, por exemplo, em Janeiro deste ano e, mais recentemente, no início de Julho, a Governadora Rosinha Matheus, o Engenheiro Wagner Victer, Secretario de Energia do Estado do Rio de Janeiro e o Prefeito de Paraty, José Cláudio Araújo, inauguraram a instalação, uma central de refrigeração para pescado na comunidade pesqueira de Pouso de Cajaíba, em Paraty. Esta central está equipada com uma geladeira de 460 litros e um freezer de 550 litros, todos de baixo consumo, que são acionados por um sistema híbrido que utiliza células fotovoltaicas e uma pequena turbina eólica.

Nas residências de 136 famílias foram instalados em seus telhados dois painéis fotovoltaicos importados, avaliados em pouco mais de cinco mil reais. A energia solar captada por este conjunto de dois painéis carrega a um grupo de baterias capaz de alimentar uma tomada de 40 W e três lâmpadas de 11 W (fluorescentes compactas).

A energia armazenada nas baterias – com vida útil de um ano – mantém todo este equipamento em funcionamento por até 3 dias, sem necessidade de ser recarregada.

Até o fim do seu mandato, o governo do Rio de Janeiro espera suprir a necessidade de energia de 6.000 comunidades, excluídas da energia elétrica. É conveniente assinalar que todos os colonos da ilha receberam treinamento sobre a utilização e manutenção dos equipamentos. Este projeto só foi possível graças à colaboração da firma El Paso que investiu parte do faturamento anual da usina termoelétrica de Macaé – a maior do país movida a gás do país -, em projetos de geração de energia com fontes alternativas.

No momento, a falta de uma política nacional que incentive o emprego de energia fotovoltaica nas residências das grandes metrópoles, está associada ao imposto de importação muito elevado com relação às células fotovoltaicas e, principalmente, o desinteresse dos governos estaduais que não desejam perder uma parte da sua receita que provém do ICMS, cobrado nas contas de energia elétrica de mais de 33%, que incide sobre a energia consumida.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão – Astrônomo e escritor
Fonte: Revista Eco 21, Ano XIII, Edição 80, Julho 2003. (www.eco21.com.br)