Revitalizar o Chico Antes de Transpor

Se a transposi√ß√£o √© um tema pol√™mico e sujeito a intermin√°veis discuss√Ķes, a revitaliza√ß√£o √© consenso. E √© consenso exatamente porque sua necessidade e urg√™ncia s√£o amplamente conhecidas e reconhecidas. √Č inacredit√°vel que ainda n√£o se tenha percebido a import√Ęncia do reflorestamento e recupera√ß√£o ciliar para o desenvolvimento econ√īmico e social, principalmente diante do potencial da gera√ß√£o de 2 milh√Ķes de empregos diretos, na regi√£o que mais precisa desta gigantesca frente de trabalho.

Ao anunciar a transposi√ß√£o do rio S√£o Francisco o governo reacendeu uma das mais consolidadas pol√™micas nacionais. Novamente o debate (ou aus√™ncia dele) configura-se de forma polarizada – contra e a favor. Pena que este debate manique√≠sta e ideol√≥gico seja exageradamente simplificador, porque ao negar que o outro tenha, no m√≠nimo, raz√Ķes aceit√°veis, ele perde a oportunidade de aprofundar a discuss√£o na busca de melhores alternativas e solu√ß√Ķes.

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Nem os que recusam a transposição cometem crime de lesa-pátria, nem os que defendem são irresponsáveis empedernidos. A eterna discussão entre os estados doadores (que são contra) e os receptores (que são a favor) também não contribui para a solução do impasse.

O problema real da discuss√£o polarizada est√° em tangenciar dois temas extremamente relevantes para o desenvolvimento sustent√°vel no NE e, por conseq√ľ√™ncia do pr√≥prio Pa√≠s – a gest√£o integrada dos recursos h√≠dricos e a revitaliza√ß√£o do S√£o Francisco.

Retomando o foco para estes dois relevantes temas, estaremos evitando o debate bipolar e discutindo quest√Ķes e solu√ß√Ķes muito mais significativas a longo prazo. E, na medida do poss√≠vel, evitando o cipoal pol√≠tico e legal.

Ao compreendermos a relev√Ęncia da gest√£o integrada dos recursos h√≠dricos e da revitaliza√ß√£o do S√£o Francisco, estaremos visualizando um importante modelo de desenvolvimento sustent√°vel para o nordeste brasileiro, com a gera√ß√£o de, pelo menos, 2 milh√Ķes de novos empregos.

1 РGestão integrada dos recursos hídricos no e para o Nordeste.

√Č obvio que o nordeste, uma regi√£o que possui apenas 3% da disponibilidade h√≠drica (70% no S√£o Francisco e 6% no Parna√≠ba) e 28% da popula√ß√£o do Pa√≠s, precisa desenvolver modelos extremamente eficientes de gest√£o deste recurso escasso recurso – a √°gua.

E a gest√£o integrada de recursos naturais (o que inclui a √°gua) √© uma ferramenta estrat√©gica, que perde efici√™ncia pela dilui√ß√£o de responsabilidades e dispers√£o de atribui√ß√Ķes em mais de uma d√ļzia de minist√©rios, √≥rg√£os, departamentos, institui√ß√Ķes de pesquisa, etc. O resultado √≥bvio √© que, com tantas autoridades envolvidas, ningu√©m t√™m a compreens√£o e a responsabilidade sist√™mica do gerenciamento h√≠drico no nordeste brasileiro e, o que √© pior, ningu√©m verdadeiramente planejando e executando uma pol√≠tica p√ļblica para os recursos h√≠dricos do semi-√°rido.

Retomando a concep√ß√£o estrat√©gica do tema, percebemos que existem quest√Ķes urgentes a serem resolvidas, tais como:

A) Gerenciamento da a√ßudagem – no nordeste, a quantidade de a√ßudes e represas, de todos os portes, est√° estimada em mais de 70 mil e, de fato, n√£o existe um modelo, m√©todo ou programa que efetivamente gerencie os estoques e usos dos a√ßudes. Em tese, este conjunto de a√ßudes e reservat√≥rios deveria acumular 30 bilh√Ķes de m3 de √°gua. Em tese apenas, porque falhas de projeto, de planejamento, execu√ß√£o e gerenciamento comprometem este potencial.

Existem incont√°veis a√ßudes de pequeno porte (os famosos a√ßudes ‘pires de a√ß√ļcar’, que al√©m de rasos dissolvem na √°gua) reconhecidamente ineficientes, porque perdem mais √°gua do que acumulam, raz√£o da base cristalina (em 60% da superf√≠cie do semi-√°rido) que aliada √† insola√ß√£o potencializam a evapora√ß√£o. Com quase 3 mil horas de sol por ano, o semi-√°rido possui um potencial de evapora√ß√£o maior do que de precipita√ß√£o, superior a 3 vezes, ou seja, 3000 mm/ano de evapora√ß√£o contra 800mm/ano de precipita√ß√£o, sendo que alguns a√ßudes e represas perdem quase dois metros de l√Ęmina d’√°gua por ano.

√Č esta a raz√£o pela qual, na √Āfrica do Sul, diversos a√ßudes possuem menor di√Ęmetro do que a nossa m√©dia, mas s√£o de 3 a 5 vezes mais profundos, visando reduzir a perda por evapora√ß√£o. Ao mesmo tempo eles s√£o freq√ľentemente “cobertos”, isto √© recebem uma cobertura pl√°stica micro-perfurada que √© capaz capturar parte da evapora√ß√£o e at√© de coletar o orvalho.

S√£o freq√ľentes as imagens de a√ßudes quase vazios, mas, ainda assim, com bombas de suc√ß√£o superdimensionadas, coletando √°gua para irriga√ß√£o, mesmo com a maior parte da popula√ß√£o do entorno sedenta e dependendo de carros e jegues-pipa, em clara viola√ß√£o da l√≥gica, da √©tica e da legisla√ß√£o.

Muitos destes açudes pires estão salinizados e/ou poluídos por esgotos, algas tóxicas e resíduos agrotóxicos, tornando a água imprópria para consumo humano e animal. No entanto, a população precisa usar esta água imprópria pela mais absoluta falta de alternativa. Esta é a realidade da maioria das cacimbas tão comuns na região.

Dizer que alguns reservat√≥rios s√£o de “a√ß√ļcar” ou “sonrisal” √© uma forma jocosa de indicar a facilidade com que eles, por serem subdimensionados e mal projetados, n√£o suportam a carga adicional em caso de chuvas mais intensas, como aconteceu no in√≠cio de 2004, quando em raz√£o de precipita√ß√Ķes 5 vezes maiores do que a m√©dia hist√≥rica, dezenas destas barragens entraram em colapso.

Não basta um gigantesco esforço para a construção de açudes e barragens, mas um modelo de gerenciamento que garanta a sua eficiência e seu uso racional. Lamentavelmente isto ainda não foi sequer debatido, quanto mais solucionado.

B) Fiscaliza√ß√£o da outorga e dos usos – em que pese a clara legisla√ß√£o relativa √† outorga da √°gua, sabemos que ela n√£o √© cumprida e fiscalizada. Ao longo das bacias do nordeste brasileiro √© comum a imagem da irracional capta√ß√£o para fins de irriga√ß√£o, sendo que a capta√ß√£o irregular (e irrespons√°vel) √© estimada em 100 vezes maior do que a quantidade das capta√ß√Ķes com outorga.

Pelo menos 70% da disponibilidade h√≠drica da regi√£o √© usada para a irriga√ß√£o, sendo ainda muito comum √† utiliza√ß√£o de piv√īs centrais, reconhecidamente um m√©todo de irriga√ß√£o que possui elevado √≠ndice de desperd√≠cio. Estudo do Professor Aldo Rebou√ßas, da Universidade de S√£o Paulo (USP), indica que, na Espanha, a utiliza√ß√£o de √°gua na agricultura √© de 5 a 6 mil metros c√ļbicos por hectare/ano; em Israel, de 3 a 5 mil; no Nordeste, de 18 mil metros c√ļbicos por hectare ao ano. Observou tamb√©m que, segundo o Banco do Nordeste, quem consome mais de 7 mil metros c√ļbicos de √°gua por hectare/ano n√£o consegue lucro na produ√ß√£o agr√≠cola.

Triste exemplo, da falta de programas de agricultura irrigada realmente adaptada √† regi√£o, ocorreu no Cear√°, no entorno do a√ßude Or√≥s, com o incentivo √† produ√ß√£o de arroz, visando a auto-sufici√™ncia. A produ√ß√£o vem se demonstrando claudicante, em raz√£o das precipita√ß√Ķes pluviom√©tricas irregulares e a reduzida garantia da oferta dos recursos h√≠dricos necess√°rios. Considerando o solo, de base cristalina e a insola√ß√£o, podemos compreender a gigantesca perda de √°gua por evapora√ß√£o. Mais racional seria, incentivar agricultura “√† seco”, mais adequada ao solo, clima e disponibilidade h√≠drica.

Desperd√≠cio de √°gua √© reprov√°vel em qualquer situa√ß√£o, mas no nordeste brasileiro √© uma trag√©dia. √Č responsabilidade da ANA e dos Comit√™s de Bacias reprimirem esta forma predat√≥ria e irrespons√°vel de uso dos escassos recursos h√≠dricos do semi-√°rido. Al√©m disto, devem desenvolver um modelo realmente eficaz de integra√ß√£o com os munic√≠pios, porque eles realmente estar√£o mais pr√≥ximos do problema e seus habitantes ser√£o as reais v√≠timas do primeiro impacto do desperd√≠cio.

Diante da escassez cr√īnica nenhum uso irracional e irrespons√°vel √© admiss√≠vel, qualquer que seja o poder econ√īmico e pol√≠tico do depredador.

C) Programa de apoio à construção de cisternas Рeste é um tema muito falado e pouco realizado. Um bom exemplo de programa de construção de cisternas para armazenamento da água de chuva é da Cáritas Brasileira, ong que faz parte de uma rede internacional da Igreja Católica. Diversos Estados possuem programas semelhantes e até a FEBRABAN assumiu o compromisso de financiar a construção de 10 mil cisternas.

Pena que, at√© agora, as a√ß√Ķes tenham sido pontuais e insuficientes diante da necessidade de constru√ß√£o de 1 milh√£o de cisternas. Bem, mas qual √© a import√Ęncia disto? √Č simples, uma cisterna com 12 mil litros pode garantir o fornecimento de √°gua para uma fam√≠lia de 4 pessoas por 8 meses, que √© o per√≠odo normal de estiagem na regi√£o.

Um amplo e bem organizado programa de apoio √† constru√ß√£o de cisternas, com plena integra√ß√£o federal – estadual – municipal, n√£o apenas seria uma micro-solu√ß√£o importante para a sobreviv√™ncia do sertanejo, como tamb√©m, ao eliminar a ind√ļstria dos carros e jegues-pipa, seria um grande golpe no modelo mais demag√≥gico do coronelismo.

D) Sistemas de dessaniliza√ß√£o – em muitas regi√Ķes do semi-√°rido a √°gua de subsolo √© salobra, com teores salinos que a tornam inadequada para consumo humano ou animal. √Č por isto que, em Mossor√≥, RN, a fruticultura irrigada de exporta√ß√£o optou pela utiliza√ß√£o de po√ßos profundos, de 500 at√© 800 metros.

O processo de dessaliniza√ß√£o possui elevado custo operacional, mas produz √°gua de excelente qualidade porem desmineralizada, o que exige corre√ß√£o, visando garantir a sa√ļde da popula√ß√£o usu√°ria.

Em que pese seu custo operacional e a necessidade de remineralizar a √°gua, a dessaniliza√ß√£o √© a √ļnica alternativa vi√°vel em diversas regi√Ķes, considerando que a capta√ß√£o por po√ßos profundos possui custos ainda maiores.

E) Regularização fundiária e acesso à água Рeste é um dos maiores e mais significativos problemas da região.

Muitos potenciais usu√°rios da atual disponibilidade h√≠drica n√£o possuem recursos para os investimentos necess√°rios para a capta√ß√£o da √°gua, inclusive nos pontos de distribui√ß√£o das adutoras j√° existentes. N√£o podem sequer pleitear linhas oficiais de financiamento porque n√£o possuem exist√™ncia legal (n√£o possuem quaisquer documentos – in√ļmeros habitantes do semi-√°rido sequer possuem certid√£o de nascimento) e precisam de regulariza√ß√£o fundi√°ria, porque n√£o podem comprovar a titularidade da terra em que vivem e tentam produzir.

Ao longo da bacia do rio Piranhas-Açu (PB e RN) encontram-se incontáveis roçados mortos ou esgotados ao lado de férteis fruticulturas, todos a menos de 100 metros de um ponto de distribuição de adutora. A diferença, entre um e outro, está no acesso à água.

Em muitos pequenos municípios esta estrutura quase feudal de acesso à água é uma importante razão de fundo para a sua estagnação.

Qualquer programa minimamente eficiente, com ou sem transposição, exige a efetiva garantia do acesso à água. Se for para atender aos atuais privilegiados não é preciso fazer nada, porque eles já têm acesso aos recursos hídricos disponíveis.

2 РRevitalização Hidroambiental da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco

Na quest√£o da revitaliza√ß√£o n√£o √© necess√°rio inventar a roda, basta executar o “Plano de Revitaliza√ß√£o Hidroambiental da Bacia Hidrogr√°fica do Rio S√£o Francisco”, ou seja:

2.1. Planejamento e gest√£o integrada dos recursos naturais da bacia do S√£o Francisco; 

2.2. Revegeta√ß√£o de margens e nascentes do S√£o Francisco e de seus afluentes; 

2.3. Aumento das vaz√Ķes de estiagem no M√©dio S√£o Francisco, melhorando suas condi√ß√Ķes de navegabilidade; 

2.4. Programa de saneamento b√°sico e controle de polui√ß√£o de cerca de 400 n√ļcleos urbanos que, em sua maioria absoluta, lan√ßam esgoto sem tratamento no rio S√£o Francisco ou em seus afluentes; 

2.5. Disciplinamento e prote√ß√£o da pesca; apoio √†s comunidades ribeirinhas do Baixo S√£o Francisco. 

Estes 5 itens s√£o de fundamental import√Ęncia para a sustentabilidade da regi√£o, ao mesmo tempo que podem gerar mais de 2 milh√Ķes de novos empregos. Vejamos cada um deles 

2.1. Planejamento e gest√£o integrada dos recursos naturais da bacia do S√£o Francisco.

Neste caso, os conceitos e m√©todos j√° foram minimamente demonstrados quando discutimos a gest√£o integrada dos recursos h√≠dricos. √Č claro que existem varia√ß√Ķes quanto ao clima, solo, √≠ndice pluviom√©trico, usos da √°gua, etc, mas a l√≥gica √© basicamente a mesma.

Mas quero destacar e insistir que, assim como deve ocorrer em qualquer bacia ou micro-bacia, os municípios devem preparar-se para atuar firmemente na gestão de seus recursos naturais, inclusive os recursos hídricos. Devem organizar-se inclusive em consórcios intermunicipais (por bacias e micro-bacias), investindo na sua capacitação técnica e qualificação de seus recursos humanos.

2.2. Revegetação de margens e nascentes do São Francisco e de seus afluentes.

Isto pode ser traduzido em reflorestamento e recomposição das matas ciliares. As matas ciliares têm importante papel na ecologia e na hidrologia de uma bacia hidrográfica, pois auxiliam na manutenção da qualidade da água, na estabilização do solo das margens, evitando a erosão e o assoreamento, no desenvolvimento e sustento da fauna silvestre aquática e terrestre ribeirinha e na regularização dos regimes dos rios através dos lençóis freáticos (fonte SEMADS).

De forma simplificada, isto permitiria reduzir o assoreamento, minimizar a evaporação e aumentar a recarga das nascentes e mananciais, com a vantagem de gerar milhares de empregos.

Estudos da Fundação Joaquim Nabuco estimam que a bacia do rio São Francisco já perdeu 75% da vegetação e 95% das matas ciliares. Ao longo prazo, isto significa o esgotamento de qualquer bacia hidrográfica, tendo como o mais dramático exemplo o Mar de Aral.

O reflorestamento, com vegeta√ß√£o nativa usa pelo menos 1000 mudas por hectare e, neste caso, ter√≠amos mais de 2 milh√Ķes de hectares a serem reflorestados/recuperados o que significa mais de 2 bilh√Ķes de mudas. As 97 cidades ao longo do Velho Chico poderiam criar os p√≥los de coleta de sementes e produ√ß√£o de mudas, bem como as frentes de trabalho para o plantio e manuten√ß√£o. Uma conta bem prim√°ria indica cria√ß√£o de 1 emprego direto por hectare, por mais de 30 anos, para cada cidade, ao custo de R$ 4 por muda plantada. A recupera√ß√£o ciliar, no total, custaria algo em torno de R$ 8 bilh√Ķes ao longo de 30 anos, o que √© razo√°vel, considerando os impactos sociais, econ√īmicos e ambientais. Isto sem falar que pode ser financiado atrav√©s de projetos de seq√ľestro de carbono, amparados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – MDL.

Ali√°s, cerca de um ter√ßo desta revegeta√ß√£o poderia ser realizada simplesmente cumprindo o C√≥digo Florestal Brasileiro, incluindo a recupera√ß√£o e prote√ß√£o das reservas legais e das APP’s.

Este processo deve incluir, necessariamente, a implantação de florestas para manejo florestal madeireiro, para fins aproveitamento bioenergético e industrial. Certamente existem investidores potenciais mais do que suficientes para viabilizar este componente do processo.

√Č inacredit√°vel que ainda n√£o se tenha percebido a import√Ęncia do reflorestamento e recupera√ß√£o ciliar para o desenvolvimento econ√īmico e social, principalmente diante do potencial diante da gera√ß√£o de 2 milh√Ķes de empregos diretos, na regi√£o que mais precisa desta gigantesca frente de trabalho.

A compreens√£o da import√Ęncia deste fator √© ainda mais relevante no n√≠vel municipal. Esta imensa frente de trabalho seria fundamental para o desenvolvimento da maioria dos mais de 500 munic√≠pios da bacia, muitos estagnados h√° d√©cadas, tanto em termos econ√īmicos como sociais.

Os municípios estão sendo ignorados no debate polarizado da transposição, mas eles mais do que ninguém podem e devem defender projetos de desenvolvimento, absolutamente necessários para a sua sobrevivência. Por outro lado, na prática, não existem empregos federais ou estaduais porque eles são gerados no nível local, sempre trazendo grandes benefícios para o município, à partir da geração de emprego e renda.

Aos munic√≠pios, portanto, cabe a responsabilidade de se fazer ouvir no desenvolvimento deste conjunto de pol√≠ticas p√ļblicas de desenvolvimento efetivamente sustent√°vel.

2.3. Aumento das vaz√Ķes de estiagem no M√©dio S√£o Francisco, melhorando suas condi√ß√Ķes de navegabilidade.

O assoreamento do rio S√£o Francisco √© um grande desastre que praticamente inviabilizou sua tradicional fun√ß√£o de hidrovia. Em diversos trechos √© poss√≠vel atravessar o S√£o Francisco a p√©, como em Traip√ļ na divisa de AL com SE, com √°gua na altura dos joelhos.

Novamente citando estudos da Funda√ß√£o Joaquim Nabuco, descritos pelo pesquisador Jo√£o Suassuna, existem estimativas que dezoito milh√Ķes de toneladas de solos sejam carreados anualmente para a calha do rio, justamente em raz√£o da perda de cobertura florestal, o que equivale a 5480 caminh√Ķes ca√ßamba ao dia.

Qual o potencial de transporte hidrovi√°rio (pessoas, carga, produ√ß√£o agr√≠cola) que est√° sendo desperdi√ßado e a que custo? Esta quest√£o n√£o trata da rom√Ęntica imagem dos “gaiolas” percorrendo o rio, mas sua utiliza√ß√£o efetiva e eficaz como importante via hidrovi√°ria.

A revegetação corrigiria este problema ao longo prazo, mas medidas corretivas devem ser iniciadas imediatamente, com grandes programas de dragagem e recuperação da calha do rio.

A perda do potencial de hidronavega√ß√£o √© mais um fator de estagna√ß√£o econ√īmica da bacia, impedindo a cria√ß√£o de condi√ß√Ķes geradoras de novos empregos e aumento da renda m√©dia.

2.4. Programa de saneamento b√°sico e controle de polui√ß√£o de cerca de 400 n√ļcleos urbanos que, em sua maioria absoluta, lan√ßam esgoto sem tratamento no rio S√£o Francisco ou em seus afluentes.

Isto √© uma trag√©dia sob qualquer √Ęngulo de vista e fica mais vis√≠vel no reservat√≥rio de Sobradinho.

O reservat√≥rio de Sobradinho cria, na pr√°tica, uma segunda nascente do S√£o Francisco, que possui vaz√Ķes controladas, transformando o rio em um imenso canal. No entanto, o reservat√≥rio tamb√©m funciona como um imenso tanque de decanta√ß√£o, retendo todos os sedimentos e efluentes org√Ęnicos que nele chegam.

Como uma esta√ß√£o de tratamento de esgoto, o reservat√≥rio de Sobradinho, em raz√£o do tempo de reten√ß√£o hidr√°ulica, “purifica” a √°gua polu√≠da a montante.

Em 2001, quando o reservat√≥rio chegou a 7% de sua capacidade, a simples aproxima√ß√£o era insuport√°vel, tal a toxidade da √°gua remanescente. √Āgua esta utilizada intensamente, n√£o apenas para gera√ß√£o de energia hidroel√©trica, mas para irriga√ß√£o. Qual a qualidade para consumo de produtos agr√≠colas irrigados com esta √°gua? Isto foi controlado, a produ√ß√£o contaminada descartada e os consumidores avisados dos riscos? Evidente que n√£o.

A import√Ęncia de um consistente programa de saneamento b√°sico da bacia do S√£o Francisco √© indiscut√≠vel e possui significativos resultados em termos de qualidade de vida, sa√ļde p√ļblica, aumento da expectativa de vida, redu√ß√£o da mortalidade infantil e qualidade da produ√ß√£o agr√≠cola em toda a regi√£o.

Quaisquer que sejam os custos em fazer saneamento b√°sico, ainda assim eles ser√£o muito menores do que n√£o fazer. Estudos da OMS indicam que para cada R$ 1 investido em saneamento h√° a economia de R$ 5 em sa√ļde publica.

Novamente perguntamos quantos novos empregos deixam de ser gerados com a não execução de programas de saneamento básico? Em uma bacia hidrográfica com mais de 500 municípios podemos acreditar que deixam de ser criados empregos da ordem de dezenas de milhares.

2.5. Disciplinamento e proteção da pesca; apoio às comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco.

A recuperação hidroambiental permitiria a recuperação da ictiofauna da bacia, garantindo a pesca artesanal e de subsistência, o que é, historicamente, fundamental para a sobrevivência da população ribeirinha.

No entanto, considerando os lagos formados em Sobradinho, Paulo Afonso e Xingo, ao lado da recupera√ß√£o das lagoas naturais da bacia, h√° um gigantesco potencial de produ√ß√£o de pescado, em tanques rede, o que al√©m de gerar emprego e renda tamb√©m √© uma importante contribui√ß√£o para programas de oferta de alimentos e combate √† fome.Mais uma vez a vis√£o de curto prazo impede o desenvolvimento de a√ß√Ķes sustent√°veis de longo prazo.

Conclus√Ķes

Estes cinco itens, resumidamente apresentados, n√£o esgotam as necess√°rias a√ß√Ķes para a revitaliza√ß√£o hidroambiental da bacia hidrogr√°fica do rio S√£o Francisco, mas possuem significativa import√Ęncia e significado.

Sem a sua realiza√ß√£o, a transposi√ß√£o do S√£o Francisco ser√° ineficaz ao longo prazo, apresentando mais problemas do que solu√ß√Ķes. Ser√° necess√°rio, como j√° foi reconhecido pelo governo, refor√ßar o volume do S√£o Francisco com √°guas de afluentes do Tocantins.

Ou seja, uma outra transposição, desta vez interligando as bacias hidrográficas dos rios Sono e Manoel Alves, afluentes do Tocantins, com a bacia do rio Preto, um dos formadores do São Francisco, no oeste da Bahia.

Reconhecer a potencial necessidade de uma futura transposi√ß√£o do Tocantins e¬ī, tamb√©m, reconhecer que a transposi√ß√£o do S√£o Francisco, isoladamente, tender√° ao esgotamento.

Se a transposi√ß√£o √© um tema pol√™mico e sujeito a intermin√°veis discuss√Ķes, a revitaliza√ß√£o √© consenso. E √© consenso exatamente porque sua necessidade e urg√™ncia s√£o amplamente conhecidas e reconhecidas.

No longo prazo, a gest√£o integrada dos recursos h√≠dricos do nordeste e a revitaliza√ß√£o do S√£o Francisco, ser√£o muito mais relevantes do que quaisquer projetos de transposi√ß√£o ou adu√ß√£o isoladamente, sem falar de que poder√£o gerar mais de 2 milh√Ķes de empregos diretos.

Consci√™ncia e responsabilidade diante destes temas s√£o, certamente, o que o Nordeste e todo o Brasil esperam e exigem das pol√≠ticas p√ļblicas.

Fonte:Henrique Cortez √© sub-editor do Jornal do Meio Ambiente e Coordenador de Programas Socioambientais da C√Ęmara de Cultura, e-mail: henrique@camaradecultura.org