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Floresta da Tijuca: um resgate do nome imposto pela história

A lógica por trás da mudança é absolutamente cristalina. Era o caso de dar ao Parque o nome de sua principal atração, no caso o Maciço da Tijuca. Ocorre, contudo, que jamais o nome pegou.

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É fantástica a iniciativa de se ampliar o Parque Nacional da Tijuca. Tal medida há muito se impõe. Estão de parabéns todos aqueles que durante os últimos cinco anos se bateram por essa ampliação que finalmente garantirá ao Parque a integridade do que resta de corredor ecológico entre os maciços da Tijuca e da Pedra Branca. Especial elogio deve ser feito à atual direção do PNT e aos diversos setores da Sociedade Civil que, desde a conferência “Cape Town e Rio de Janeiro - A Gestão de Parques em Áreas Urbanas do Terceiro Mundo”, que primeiro propugnou por essa idéia, sempre se bateram por sua consecução.

Aproveito este momento de mudança, entretanto para trazer à baila outra questão que há muito se impõe: a do nome do nosso querido Parque. Como é sabido a “Floresta”, como carinhosamente todos a conhecemos, foi primeiro elevada a Parque em 1961, com o nome de Parque Nacional do Rio de Janeiro. Em 1967, por iniciativa do professor Alceo Magnini e colaboradores, o nome do Parque foi mudado para Parque Nacional da Tijuca.

A lógica por trás da mudança é absolutamente cristalina. Era o caso de dar ao Parque o nome de sua principal atração, no caso o Maciço da Tijuca. Ocorre, contudo, que jamais o nome pegou. Quando fui diretor do Parque da Tijuca nos anos de 1999 e 2000, o Parque Nacional da Tijuca continuava conhecido como Parque Nacional da Floresta da Tijuca ou, mais singelamente, por Floresta da Tijuca. O Ministro do Meio Ambiente, o Prefeito do Rio de Janeiro, os Secretários Estadual e Municipal de Meio Ambiente, a imprensa, os mapas turísticos, e a absoluta maioria dos usuários só chamavam o PNT de Floresta da Tijuca. Não importa se a Vista Chinesa, a Pedra da Gávea, as Paineiras ou Sumaré não estão na Floresta, para a televisão, o rádio, e a população tudo é parte da Floresta.

A origem do nome vem de 1861, quando foi criada a Floresta Nacional da Tijuca, a ser formada por propriedades que o Estado desapropriara mediante indenização, naquela altura, já uma extensão significativa de terras. Percebe-se daí a origem de um nome que se transformará para sempre em toda sorte de confusão para os cariocas.

O termo Floresta, quando referente à Tijuca, desde seus primórdios não guarda relação com uma parcela de mata, mas com uma unidade administrativa, que era diferente da Floresta das Paineiras ou da Floresta do Andaraí Grande, hoje também parte do Parque Nacional da Tijuca. Recorremos a Aluísio de Azevedo, que em Livro de uma Sogra mostra bem que a Floresta da Tijuca, em sua concepção, era uma área bem delimitada que sequer abarcava os terrenos que incluem a Cascatinha: “Realizamos um belo passeio à Floresta da Tijuca... foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada. Não quisemos nos deter na Cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta”.

Também é interessante a passagem do romance Sonhos d’Ouro, de José de Alencar, publicado em 1872, no qual podemos ver claramente que o termo Floresta da Tijuca sequer designava uma porção de selva existente, mas sim uma mata a plantar: “lembrou-se o moço de subir até a Floresta, um dos mais lindos sítios da Tijuca. O nome pomposo do lugar não é por hora mais do que uma promessa; quando porém crescerem as mudas de árvores de lei, que a paciência e inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrirá o largo dorso da montanha onde nascem os ricos mananciais.”

Há 140 anos atrás, a bela Floresta da Tijuca que deu origem ao Parque não existia. Em lugar das árvores havia uma centena de pequenas e médias chácaras, algumas para o veraneio das famílias ricas da Corte, outras o retrato da decadência das outrora opulentas plantações de café que transformaram a Tijuca no motor econômico do Império. Hoje, o reflorestamento já deu resultado e ligou em uma só mata as diversas florestas da Tijuca, da Gávea Pequena, do Andaraí, dos Ciganos e das Paineiras. Para o habitante contemporâneo do Rio, ela é uma só, basta olhar para qualquer morro da cidade e ver árvores que pronto: lá está a Floresta da Tijuca. Para os cariocas, tudo é Floresta da Tijuca, a ponto de que a imprensa local afirma freqüentemente que “Entre os destaques da Floresta da Tijuca estão as Paineiras, o Corcovado, o Mirante Dona Marta...”. Apenas a burocracia insiste em achar que a luxuriante Floresta da Tijuca do Século 21 segue tendo os acanhados limites da desbastada Floresta da Tijuca de meados do Século 19. É hora de aproveitar a expansão de seus limites para dar, ao Parque, o nome que ele realmente tem: Floresta da Tijuca. Até o Presidente da República se rendeu à realidade de que o melhor nome é aquele pelo qual somos conhecidos e incorporou “Lula” ao seu, passando a se chamar Luís Inácio Lula da Silva.

 

A Ministra Marina Silva anunciou no sábado 5/6/04, na sede do Parque, no Rio de Janeiro, a ampliação do Parque Nacional da Tijuca, de 3,2 mil hectares para 3,95 mil hectares (quase quatro mil campos de futebol). Com a ampliação, o Parque criado em 1961 passa a incorporar o Parque Lage e a área chamada de conjunto Pretos Forros/Covanca. Além disso, foram corrigidos os limites da Unidade de Conservação, chegando a um aumento real de 753 hectares. O Decreto 03/2004, que pela primeira vez amplia uma área de preservação urbana, foi publicado no Diário Oficial da União de Sexta-feira.

A Floresta da Tijuca é considerada a maior área de mata em meio urbano do mundo, e foi declarada Reserva da Biosfera em 1991. O Parque é administrado pelo IBAMA em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro. “Na área incorporada do Parque Lage serão realizados eventos públicos, ações de cunho social e de educação ambiental. Já o conjunto Pretos Forros/Covanca será destinado principalmente para pesquisas”, disse Sônia Peixoto, chefa do Parque.

A Unidade de Conservação é uma importante área de lazer e prática de esportes disponível para os quase 6 milhões de cariocas, os grandes beneficiados com a ampliação, além de ser atração turística nacional e internacional.

As diversas estradas e trilhas do Parque permitem visitá-lo a pé, de bicicleta, motocicleta, automóvel ou ônibus. No local, existem símbolos da cidade e do País, como a estátua do Cristo Redentor, a Vista Chinesa, a Capela Mayrink, o Barracão, a Gruta Paulo e Virgínia, o Lago das Fadas e o Açude da Solidão.

A Floresta da Tijuca também abriga valiosos remanescentes da Mata Atlântica, o bioma mais ameaçado do País. Mais de um milhão e meio de pessoas visitam o local a cada ano. Além disso, o Parque tem como funções proteger uma amostra de Mata Atlântica dentro de uma região metropolitana e as nascentes que abastecem a população urbana em seu entorno, como as dos rios Carioca e Maracanã, além de resguardar a animais e plantas, alguns ameaçados ou em perigo de extinção. Até meados do Século 17, a área do Parque Nacional da Tijuca permaneceu praticamente intocada. A partir daí, foi ocupada por atividades agrícolas, como a da cana-de-açúcar, no Século 17, e café, nos Séculos 18 e 19.

Atualmente, o Parque sofre com a poluição e com expansão urbana descontrolada. No seu entorno vivem 46 comunidades.

 

* Pedro da Cunha e Menezes Escritor, diplomata e ex-Diretor do Parque Nacional da Floresta da Tijuca.


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