Ambiente Biotecnologia

Frutas nativas do cerrado: qualidade nutricional e sabor peculiar

O Cerrado destaca-se pela riqueza de sua biodiversidade, que pode ser interpretada pela vasta extensão territorial, pela posição geográfica privilegiada, pela heterogeneidade vegetal, e por ser cortado pelas três maiores bacias hidrográficas da América do Sul.

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Araticum - Annora Crassiflora Mart.

Araticum - Annora Crassiflora Mart..
Foto por Tânia Agostini Costa.

 

 

O Cerrado destaca-se pela riqueza de sua biodiversidade, que pode ser interpretada pela vasta extensão territorial, pela posição geográfica privilegiada, pela heterogeneidade vegetal, e por ser cortado pelas três maiores bacias hidrográficas da América do Sul. Os frutos das espécies nativas do cerrado oferecem um elevado valor nutricional, além de atrativos sensoriais como, cor, sabor e aroma peculiares e intensos, ainda pouco explorados comercialmente.

Algumas frutas nativas do cerrado, como o araticum, o buriti, a cagaita e o pequi, apresentam teores de vitaminas do complexo B, tais como as vitaminas B 1 , B 2 e PP, equivalentes ou superiores aos encontrados em frutas como o abacate, a banana e a goiaba, tradicionalmente consideradas como boas fontes destas vitaminas. Entretanto, grande parte das frutas nativas em regiões típicas de clima tropical é, especialmente, rica em carotenóides. Os frutos de palmeiras, como o buriti, o tucumã, o dendê, a macaúba e a pupunha são fontes potenciais de carotenóides pró-vitamina A.


Aproximadamente 600 carotenóides são encontrados na natureza, constituindo o maior grupo de corantes naturais, cuja coloração pode variar entre o amarelo claro, o alaranjado e o vermelho. Alguns podem ser convertidos em vitamina A; outros estão associados à redução do risco de câncer e de outras doenças crônico-degenerativas, sem que estes sejam primeiro convertidos em vitamina A. Esta última função tem sido atribuída ao potencial antioxidante dos carotenóides, que são capazes de seqüestrar formas altamente reativas de oxigênio e desativar radicais livres.

A Dra. Délia Rodriguez-Amaya, professora e pesquisadora da Unicamp, é reconhecida internacionalmente pela avaliação dos alimentos brasileiros como fontes de carotenóides. Segundo a autora, o buriti (Mauritia Vinifera) constitui uma das principais fontes de pró-vitamina A encontradas na biodiversidade brasileira (6.490 microgramas de retinol equivalente por 100g de polpa). O elevado potencial pró-vitamínico deste fruto é resultado dos altos teores de beta-caroteno, principal fonte pró-vitamina A encontrada no reino vegetal. Estudos realizados pela Dra. Tânia da Silveira Agostini-Costa, pesquisadora da Embrapa, em parceria com Dr. Daniel Barrera-Arellano, professor da Unicamp, reforçam o potencial pró-vitamina A do buriti. Segundo trabalhos desenvolvidos por estes pesquisadores, um grama de óleo de buriti apresentou 1.181 microgramas de beta-caroteno, o que faz deste óleo uma das maiores fontes de pró-vitamina A (18.339 microgramas de retinol equivalente por 100 g de óleo).

O buriti não apresenta um consumo regular em todas as regiões do Brasil; os frutos são consumidos, principalmente na forma de sucos e doces caseiros, pela população local de algumas áreas específicas das regiões Norte e Central. O Professor José Guilherme Mariath e colaboradores da Universidade Federal da Paraíba e do Instituto de Tecnologia de Pernambuco avaliaram o efeito da suplementação alimentar com o doce de buriti sobre a manifestação clínica da hipovitaminose A em regiões típicas do semi-árido. Os autores concluíram que a suplementação alimentar de crianças com idade entre 4 e 12 anos com 12g de doce de buriti por dia, durante 20 dias, foi suficiente para recuperar quadros de hipovitaminose A, com evidências clínicas de xeroftalmia, que é um sintoma clínico da deficiência de vitamina A caracterizado pela perda da visão. Embora o valor pró-vitamina A do doce de buriti não tenha sido excessivamente elevado (134 microgramas de retinol equivalente), os excelentes resultados obtidos parecem confirmar a influência positiva da composição lipídica do fruto (29%), que se conservou no doce (6,5%), favorecendo um aumento da biodisponibilidade, ou seja, um melhor aproveitamento dos carotenóides pró-vitamina A pelo organismo.

Além das palmeiras, outras frutas nativas do cerrado brasileiro, de consumo regional bastante difundido, como o araticum e o pequi, também, são importantes fontes de carotenóides. Frutos de araticum ou marolo (Annona crassiflora Mart.) procedentes de populações nativas do sul de Minas Gerais apresentaram teores de pró-vitamina A que variaram entre 70 e 105 retinol equivalente por 100g de polpa. A geléia caseira de araticum, processada termicamente, conservou melhor os teores de carotenóides, de vitamina C e o potencial pró-vitamina A do que o licor caseiro que foi obtido por infusão alcoólica a frio. Vitaminas e antioxidantes são altamente instáveis e susceptíveis a degradações durante o processamento pós-colheita. A natureza do produto e as condições de processamento e estocagem podem afetá-los, comprometendo a aparência, o aroma e o valor nutritivo do alimento.

Os valores pró-vitamina A determinados no pequi (Caryocar brasiliensis) procedentes dos estados do Piauí e do Mato Grosso do Sul, respectivamente, variam entre 54 e 494 microgramas de retinol equivalente por 100g de polpa. A Dra. Maria Isabel Ramos e os seus colaboradores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul avaliaram o efeito do cozimento convencional do pequi sobre o teor de carotenóides pró-vitamínicos. A polpa fatiada de pequi foi cozida com arroz, de acordo com culinária regional. Embora o cozimento tenha comprometido 25% do valor pró-vitamínico do fruto, ainda conservou 375 microgramas de retinol equivalente por 100g de polpa cozida, contribuindo significativamente para o enriquecimento da dieta.

O Ministério da Saúde do Brasil tem estimulado a implementação de programas de educação alimentar para incentivar o consumo de alimentos ricos em vitamina A e em outros nutrientes. Muitos destes alimentos, como as frutas nativas, apresentam custo acessível, mesmo para as populações mais carentes. O uso sustentado destas fruteiras nativas pode ser uma excelente opção para melhorar a saúde da população brasileira e para agregar valor aos recursos naturais disponíveis no cerrado, melhorando a renda das pequenas comunidades rurais e favorecendo a preservação das espécies nativas.


Referências Bibliográficas

ALMEIDA, S. P. & AGOSTINI-COSTA, T. S. Frutas Nativas do cerrado: caracterização físico-química e fonte potencial de nutrientes. In: Cerrado: ambiente e flora . Brasília: Embrapa Cerrados, Segunda edição revisada e ampliada (no prelo).

MARIATH, J. G. R.; LIMA, M. C. C.; SANTOS, L. M. P. Vitamin A activity of buriti ( Mauritia vinifera Mart ) and its effectiveness in the treatment and prevention of xerophthalmia. American Journal of Clinical Nutrition , v. 49, n. 5, p. 849-853, 1989.

RAMOS, M. I. L.; UMAKI, M. C. S.; HIANE, P. A.; RAMOS-FILHO, M.M. Efeito do cozimento convencional sobre os carotenóides pró-vitamínicos A da polpa do pequi ( Caryocar brasiliense Camb ). Boletim CEPPA , v. 19, n.1, p.23-32, 2001.

RODRIGUEZ-AMAYA, D. B. Assessment of the provitamin A contents of foods – the Brazilian experience. Journal of Food Composition and Analysis, v. 9, p.196-230, 1996.

 

Tânia Agostini-Costa e Roberto Fontes Vieira - Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia



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