Ambiente Água
Chuva de beber: cisternas para 50 mil famílias do semi-árido
Em uma realidade totalmente diferente do empobrecido Nordeste, a Grande São Paulo, capital econômica do Brasil, enfrenta uma nova ameaça de racionamento de água.
As chuvas começam, finalmente, a se constituírem em fonte direta para atenuar a escassez de água nos dois extremos do Brasil, a pobre zona rural do Nordeste semi-árido e a rica região metropolitana de São Paulo. A primeira experiência é o Programa Um Milhão de Cisternas Rurais (P1MC), lançado em 2000, para fazer do céu um manancial de água potável para cerca de 5 milhões de pessoas nos próximos cinco anos no interior do Nordeste, açoitado por freqüentes secas.
O P1MC, premiado como “uma solução definitiva para a falta de água potável” na região, é uma parceria do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), uma rede de 750 ONGs, sindicais, comunitárias e eclesiásticas.
A ASA até hoje já construiu 54.283 cisternas, sendo que, deste total, o MDS participou com o financiamento de 54,6% das unidades em 11 Estados, a maioria do Nordeste.
Na semi-árida Região Nordeste do Brasil chove pelo menos 200 milímetros nos anos mais secos, o suficiente para abastecer cinco pessoas por ano com o armazenamento da água que cai no telhado.
Atualmente, durante a seca, as pessoas, em geral as mães de família, têm de caminhar várias horas em busca de água nos açudes compartilhados com animais e parasitas, a única fonte disponível, mas também causa de diarréias e da elevada mortalidade infantil da região.
São incontáveis as horas perdidas nesse “ir e vir, a lata de água pesando em meus braços, roubando meu tempo, levando minhas forças e minha juventude, minando nossas esperanças”, descreveu Josefa Cabral do Nascimento, uma viúva de 56 anos, em um testemunho à ASA. Como uma das primeiras beneficiadas do programa, Josefa disse que não pôde “conter as lágrimas... de felicidade, de vida nova”, ao ver construída ao lado de sua casa a cisterna com que sonhou durante décadas.

Placas pré-fabricadas de cimento facilitam a construção das cisternas pela própria população, em um trabalho coletivo voluntário que permite reduzir o custo, que gira em pouco mais de R$ 1.000.
Trata-se de tanques cilíndricos com uma parte colocada em um buraco no solo e capacidade para 16 mil litros. Não se trata simplesmente de pôr fim à sede, aos parasitas intestinais generalizados e ao sacrifício de buscar água longe, sempre a cargo das mulheres, disse João Amorim, gerente operacional do P1MC. Apenas comunidades organizadas participam do programa.
As pessoas beneficiadas têm de fazer um curso de dois dias sobre cuidados que devem ter, como jogar fora as primeiras águas que caem, pois limpam o telhado. Também devem tratar a água com cloro, para garantir sua descontaminação. O P1MC compreende conhecimentos sobre o meio ambiente local e melhores formas de viver nele, como indica seu nome completo, que é Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais.
A organização comunitária é a chave para resolver outros problemas. O Programa contou com escassos recursos em sua fase de testes, suficientes para apenas cinco mil cisternas. Agora, incluído nos programas sociais do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conta com contribuições do Ministério da Segurança Alimentar para a construção imediata de 12.040 cisternas, informou Amorim. Outras 20 mil serão construídas com contribuições da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN).
A meta é atingir 50 mil cisternas até o final do próximo semestre, acelerando o ritmo nos próximos anos com a adesão de novos “sócios” públicos e privados, para chegar a completar um milhão em 2008, disse o gerente do projeto.
Em uma realidade totalmente diferente do empobrecido Nordeste, a Grande São Paulo, capital econômica do Brasil, enfrenta uma nova ameaça de racionamento de água. Chuvas menos freqüentes do que o normal no início deste ano agravaram uma crise que é estrutural, com mananciais contaminados e afetados pelo desmatamento nas proximidades.
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) calcula que seu atual sistema atenderá somente até 2010 as necessidades da região metropolitana, onde vivem 17 milhões dos 172 milhões de habitantes do Brasil.
Não é um problema de escassez de chuva. A Grande São Paulo também vive o drama das inundações em todos os seus verões, quando chove muito. Por isso, as águas constituem um duplo tormento e captar as fornecidas pelas chuvas pode atenuá-los.
O volume captado será sempre pequeno em relação ao que inunda a cidade, mas seria importante para amenizar o ímpeto da torrente em seu clímax, disse Ivanildo Hespanhol, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Com esse objetivo, as autoridades locais estão construindo, há anos, os chamados piscinões, grandes tanques que servem para reter parte das águas da chuva. Essa alternativa poderia ser adotada por numerosos edifícios e residências, com o aproveitamento da água da chuva para usos que não exijam potabilidade, como limpeza, vasos sanitários e irrigação, disse Hespanhol, descartando seu uso para beber, devido à contaminação do ar. Alguns edifícios de São Paulo usam esse sistema, buscando reduzir custos. A água é o segundo maior gasto nos edifícios de apartamentos, perdendo apenas para o pagamento de salários dos funcionários, segundo as administradoras. A prefeitura paulistana estimula projetos nesse sentido.
Entretanto, são iniciativas sem critério, pois aproveitar as chuvas é uma questão de engenharia, afirmou Hespanhol. O armazenamento dessas águas deveria ser feito diretamente no teto, para uso nos grifos, evitando o gasto de energia para bombear a água, por exemplo. Isso muda o edifício, devendo estar previsto desde sua construção, acrescentou. Além da captação de água pluvial, mais viável em indústrias e outras atividades que ocupam áreas extensas com muito consumo hídrico, deve-se combinar o reuso da água servida e tratada. No futuro serão necessárias tubulações distintas para separar a água potável das demais, explicou o engenheiro, especialista em reuso de água.
Mário Osava - Jornalista Fonte: Revista Eco 21, Ano XIV, Edição 96, Novembro 2004. (www.eco21.com.br)
Reuso da água doce
Água: Esgotabilidade, Responsabilidade e Sustentabilidade
Água: mais eficácia e mais transparência
Água e Desenvolvimento: caminhando de mãos dadas
Riqueza e miséria da água
Publicidade
