Ambiente Agropecuário

O sabor apimentado do Estado de Roraima

As pimentas de cheiro são as que mais circulam e têm movimento comercial entre os produtores rurais do centro-sul do Estado.

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A EMBRAPA-Roraima, numa parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA e com o Museu Integrado de Roraima - MIRR, a partir de 2000, iniciou um levantamento de pimentas do gênero Capsicum cultivadas no Estado, com o objetivo de conhecer a rede de produção, comercialização e uso deste condimento, visando impulsionar esta atividade como um novo tipo de agronegócio voltado para os pequenos agricultores de Roraima.

Foram identificadas 4 espécies entre os 162 acessos pertencentes ao grupo das “domesticadas”: C. chinense Jacq. (120 ou 74,1%), C. frutescens L. (12,3%), C. annuum L. (8,6%) e C. baccatum L. (4,9%). O nível de pungência (ardência) com maior número de registros foi o “alto” (103 ou 63,6%), seguido do “médio” (16,0%), “baixo” (14,8%) e “muito alto” (5,6%). Dos 104 acessos de coloração avermelhada, 59 (56,7%) possuíam pungência “alta”.

Pimentas deste gênero cultivadas em Roraima possuem uma enorme diversidade de formas, cor e de nível de ardência. Conforme o pesquisador da EMBRAPA Roraima, Joaci Freitas, as pimentas malagueta, murupi e olho-de-peixe são as usadas com maior intensidade e volume nas comunidades indígenas locais.

As pimentas de cheiro são as que mais circulam e têm movimento comercial entre os produtores rurais do centro-sul do Estado.

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Conforme o pesquisador, as pimentas são utilizadas regularmente em muitas comunidades indígenas na “damorida”, um caldo à base de água, proteína animal e pimenta que é levado ao fogo e ingerido com o beiju. Outras formas de uso popular são os molhos à base de soro de leite, tucupi (escorrido da mandioca) ou vinagre. Quando há excedente de produção, as comunidades secam e moem as pimentas até obter um pó fino localmente conhecido como “jiquitaia”.

As pimentas de “cheiro” (média e baixa ardência) são as mais comercializadas.

Os plantios variam de 2.000 a 5.000 pés, sempre em unidades familiares. A produção é vendida no mercado local a R$ 30,00 o saco de 20 kg in natura (verde), e também, “exportada” para Manaus.

Nas feiras livres da cidade de Boa Vista, horticultores e agricultores indígenas comercializam pimentas in natura e na forma de molhos e, também, em pó. Para o pesquisador Joaci Freitas, este agronegócio tem crescido muito entre os feirantes, demonstrando ser atraente para produtores, vendedores e consumidores, no entanto, aspectos relacionados com tecnologia de processamento, controle de qualidade, embalagem e estudo de novos mercados podem ampliar a atividade, agregando valor à produção.

Observa-se com o estudo que o cultivo das pimentas têm demonstrado a possibilidade de desenvolver um agronegócio com diversas formas de beneficiamento como plantas ornamentais, hortaliças para temperos, doces, inseticida natural, molhos, licores através do processamento simples, diz o pesquisador.

Para ele, a pimenta é uma grande alternativa de cultivo tanto para a agricultura familiar como para os empresários, pois o rendimento bruto chega a R$ 45 mil por cada hectare/ano, com um custo de produção em torno de R$ 10 mil, entre a implantação e a condução da cultura. Existem variedades que produzem 30 toneladas por hectare a cada ano, obtendo um preço no mercado de R$ 1,50 por quilo in natura. Existem empresários que já estão desenvolvendo um trabalho artesanal na produção de geléias, doces, bombons, pastas e licores de pimenta doce. Na sede da EMBRAPA-Roraima existe uma vitrine com amostras de diversas espécies de pimenta.

 

Plantas medicinais, cosméticas e aromáticas

Os pequenos produtores rurais do Estado de Roraima estão cultivando plantas medicinais tanto para o uso medicinal como para uma alternativa de fonte de renda. Para atender esta demanda, a EMBRAPA identifica e realiza estudos agronômicos de diversas espécies de plantas em Roraima.

A EMBRAPA já identificou cerca de 120 espécies de uso popular entre plantas nativas e introduzidas. Fazem parte do rol das nativas a salva do campo, arueira, sucuba, doradinha, orelha de onça e o caimbé. O chambá, açafroa, capim santo, cidreira, jambu, malvarisco, magarataia, vick, pathcouli, citronela são plantas introduzidas que possuem amplo uso na medicina popular, nos cosméticos e xomo aromáticas.

As plantas medicinais ocupam um espaço cada vez maior como alternativa terapêutica viável, especialmente entre as comunidades carentes, que mantêm a tradição do uso de plantas medicamentosas e não têm acesso aos dispendiosos remédios da medicina alopática. Para uma geração mais atenta às contra-indicações e aos efeitos colaterais resultantes do uso de medicamentos sintéticos, as plantas e seus derivados naturais representa uma fonte de saúde eficaz que, a cada dia, adquire maior importância na medicina moderna. Com relação ao agronegócio destas plantas, na Amazônia já existem algumas empresas manipuladoras e produtoras de remédios à base de ervas naturais.

O acesso às plantas medicinais se dá pelo extrativismo ou pelo cultivo. O extrativismo sem planejamento, como é realizado de forma geral hoje em dia, é responsável pela ameaça de extinção de várias espécies vegetais. Para se manter constante o fornecimento de matéria-prima e evitar a extinção de espécies, se procede ao cultivo das plantas, que, em pequena escala, não requer grandes espaços e habilidades especiais. A combinação de conhecimentos sobre preparo do solo, irrigação e manejo adequado das plantas é essencial para a produção dos fármacos utilizados na medicina natural.

Joaci salienta que em Roraima é comum a disponibilidade de espaços físicos ao redor das casas, os chamados quintais. Nesse ambiente, a composição de plantas adaptadas à sombra ou ao pleno sol, composta de ervas, arbustos ou pequenas árvores medicinais, pode resultar numa farmácia viva disponível para as famílias.

As plantas medicinais podem ser cultivadas em qualquer local desde que se obedeçam as características de cada espécie. Algumas são cultivadas a pleno sol; outras requerem ambientes sombreados.

As plantas medicinais são cultivadas em canteiros, covas ou recipientes, dependendo da espécie e da disponibilidade de espaço. As espécies de crescimento rasteiro são cultivadas em canteiros, que devem ter a largura de 1 metro e comprimento variável. Várias plantas podem ser cultivadas seqüencialmente em um mesmo canteiro. A adubação e correção do solo do canteiro obedecem às especificações já citadas.

Para o cultivo em recipientes como vasos, latas e pneus usados recomenda-se o uso de solo preparado tal qual os dos canteiros. É necessário que os recipientes tenham orifícios para o escoamento do excesso de água no solo.

A multiplicação das plantas pode ser feita por sementes ou por pedaços da planta, como ramos e rizomas. As sementes são plantadas em canteiros. Os chás, a infusão, o banho, o cataplasma, o suco ou sumo, a tintura, o xarope são algumas formas de preparo de remédios caseiros.

Além de novos agronegócios para a Região Norte, a riqueza em biodiversidade da Amazônia é uma realidade que, aos poucos, vai sendo apresentada ao mundo nas diversas formas de utilização dos seus recursos naturais. Tal como o guaraná e o açaí, que já conquistaram um mercado garantido no país, as plantas medicinais, as pimentas e seus derivados são, há muito tempo, utilizadas na Amazônia, mas, só recentemente é que o incremento da produção regional tem feito dessa atividade uma importante fonte de renda para colonos e indígenas da região.

 

Por Daniela Collares Revista Eco 21, Ano XII, No 71, Outubro de 2002 (www.eco21.com.br)


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