Ambiente Agropecuário

Monitoramento, biodiversidade e sistemas de produção orgânicos

Os povoamentos faunísticos também estão evoluindo no sentido de uma maior estabilidade e uma melhor implantação no conjunto dos hábitats e no seu entorno.

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Há mais de vinte anos, pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA (Embrapa Monitoramento por Satélite – http//:www.cnpm.embrapa.br), vêm desenvolvendo métodos para avaliação da biodiversidade em sistemas agrícolas, com ênfase no estudo da vegetação e da fauna selvagem. Esses estudos têm sido aplicados em diversos tipos de propriedades rurais (desde pequenos agricultores extrativistas até empresas rurais modernas e intensificadas), diversos resultados e métodos têm sido consolidados ao longo desses anos.

Desde 1990, essa equipe de pesquisadores acompanha a conversão para a agricultura orgânica de diversas propriedades rurais, e em particular o caso da Usina São Francisco, situada na região Noroeste do Estado de São Paulo e voltada para a produção de cana-de-açúcar.

A Usina São Francisco foi objeto de levantamentos intensivos de sua biodiversidade entre 2002 e 2003. Os resultados obtidos permitiram uma descrição qualitativa e quantitativa da biodiversidade faunística em diversos hábitats associados ao uso e ocupação das terras, bem como a constituição de um acervo de informações taxonômicas, ecológicas e iconográficas sobre as espécies presentes.

A gestão ambiental e a produção orgânica fazem com que cada tipo de uso e ocupação das terras seja considerado como um hábitat faunístico, compondo com outros, as unidades de paisagem. Os mapeamentos realizados dos hábitats e do uso e cobertura das terras indicam que, além do modo de produção orgânico, a propriedade é gerenciada como um todo, considerando as complementariedades e as diversas funções das unidades de paisagem na conservação da biodiversidade faunística.

O trânsito dos animais selvagens pelas áreas da propriedade, principalmente no caso dos mamíferos, répteis e anfíbios, é assegurado e facilitado por uma série de conexões e corredores (valetas de drenagem, carreadores e caminhos em processo de vegetalização, matas ciliares etc.).

A riqueza e a diversidade faunística inventariadas e quantificadas nas áreas da Usina São Francisco são excepcionais. No prazo de 12 meses, entre 2002 e 2003, foram realizados 820 levantamentos zooecológicos, visando a mastofauna selvagem, sendo detectadas e identificadas pelos especialistas 247 espécies de vertebrados terrestres (5 anfíbios, 13 répteis, 191 aves e 38 mamíferos) no conjunto dos levantamentos zooecológicos. Nunca houve qualquer introdução voluntária de espécies animais nas áreas da propriedade, que são protegidas contra a caça e a presença de intrusos.

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Numa área de 79 km2, foram detectadas 191 aves, um número de espécies superior ao total da avifauna da Suíça (176 espécies em 41.285 km²) e quase de metade da avifauna da Europa (473 espécies de base). Mesmo localmente, os resultados são significativos. No município vizinho, a comunidade de aves identificadas para a cidade de Ribeirão Preto e seu entorno soma 123 espécies, 64% da avifauna presente nas áreas da Usina São Francisco.

Dentre as espécies mais freqüentes presentes nas áreas da Usina São Francisco e entorno estão a asa-branca (Columba picazuro), o anu-preto (Crotophaga ani), o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) e o suiriri (Tyrannus melancholicus). O lobo-guará (Cerdocyon thous), o sanhaço (Thraupis sayaca), o quero-quero (Vanellus chilensis), o joão-de-barro (Furnarius rufus), a corruíra (Troglodytes aedon), entre outros, podem ser considerados mediamente freqüentes, enquanto que a onça-parda (Puma concolor), a seriema (Cariama cristata), o gavião-caboclo (Buteogallus meridionalis) são considerados pouco freqüentes. As raras correspondem a 68,5% do número total de espécies nas áreas da Usina São Francisco. Essa riqueza faunística é provavelmente maior e isso deverá ser constatado no futuro com o monitoramento mais exaustivo e específico de alguns grupos de espécies como os répteis e anfíbios, os quirópteros e os animais dos ambientes aquáticos.

Destacou-se a ocorrência de seis espécies características de uma biodiversidade exclusiva dos canaviais orgânicos. O gato mourisco (Herpailurus yagouarondi) é uma das seis espécies bem adaptadas aos canaviais orgânicos, único local onde foi observado. Outra é o camundongo (Mus musculus), encontrado exclusivamente nesse tipo de habitat.

Esse pequeno roedor tem hábitos noturnos e beneficia-se da grande disponibilidade e biodiversidade de invertebrados existentes na matéria orgânica em decomposição e nos solos. O caminheiro (Anthus lutescens) é um pássaro da família Motacillidae representada no Brasil por apenas cinco espécies. Também foram encontradas, exclusivamente nos canaviais orgânicos, mais duas aves além do caminheiro: o bacurau tesoura (Hydropsalis brasiliana) uma ave tipicamente noturna; o beija flor preto e branco (Melanotrochilus fuscus), espécie de hábitos migratórios e finalmente, um réptil, a “cobra de vidro” (Ophiodes striatus), um lagarto fossorial, desprovido de patas. Por ser ápodo, só pode penetrar em solos bem estruturados e aerados, condições que vêm encontrando nos canaviais orgânicos. É insetívoro e provavelmente está bem implantado na cultura da cana-de-açúcar graças ao longo período de imobilização do solo promovido pela cana orgânica, sem arações, além das condições apresentadas pela estrutura edáfica, a disponibilidade de alimento e de abrigo encontrada nas abundantes camadas de matéria foliar em decomposição. Esses dados ilustram não apenas a riqueza específica dos canaviais e dos diversos hábitats, mas destacam seu papel de conexão espacial, abrigo e alimentação para diversas espécies animais a ponto de acolherem um povoamento animal com características próprias e exclusivas.

Há uma evolução biológica em curso: florestas e campos em reconstituição espontânea, áreas sendo enriquecidas com vegetação natural, vegetalização dos caminhos, importantes cronosequências vegetais ocorrendo nas áreas de várzeas, disseminação de espécies vegetais pela fauna nas áreas da Usina São Francisco e no seu entorno etc.

Os povoamentos faunísticos também estão evoluindo no sentido de uma maior estabilidade e uma melhor implantação no conjunto dos hábitats e no seu entorno. Anualmente novas espécies estão sendo agregadas por processos naturais à comunidade animal e muitas delas encontrarão possibilidades de implantação permanente. A manutenção das práticas orgânicas e de organização da colheita próprias à Usina São Francisco também são fundamentais para a conservação da biodiversidade. Atualmente, ao redor de 16% dos canaviais estão anualmente em formação (cana-planta) e não são colhidos. Eles cumprem um papel importante de refúgio para a fauna durante o período da colheita.

 

José Roberto Miranda - Biólogo, Mestre e Doutor em Ecologia Fonte: Revista Eco 21, Ano XIV, Edição 95, Outubro 2004. (www.eco21.com.br)


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