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Açaí-solteiro, açaí-do-amazonas (Euterpe precatoria), uma boa opção de exploração agrícola em Rondônia

Na exploração extrativista do açaí na Amazônia, são produzidos algo em torno de 200 mil toneladas de “vinho” e 150 mil toneladas de palmito, por ano, sendo quase esse total oriundo do Pará, onde ocorrem grandes concentrações naturais do açaí-de-touceira (Euterpe oleracea).

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O açaizeiro (Euterpe sp.), palmeira típica da Amazônia, de cujos frutos se obtém um “vinho” - como é chamado a polpa do açaí diluída em água - que é tradicional na cultura dos povos desta região, fazendo parte da dieta básica de algumas populações locais, atualmente se tornou “a fruta da moda” nas grandes capitais do sudeste brasileiro (Rio, São Paulo, Belo Horizonte), onde o “vinho”, ou suco de açaí, vem sendo muito consumido como energético, pelos adeptos da vida natural que cultuam a boa forma física do corpo. Esta nova mania de consumo do suco de açaí em outras regiões brasileiras, vem em muito boa hora, pois, como o palmito do açaí, que goza de boa reputação até mesmo em nível internacional e alcança bons preços no mercado, é quase na sua totalidade oriundo do extrativismo, corria-se o risco, pela exploração irracional e desenfreada, de dizimação de uma das maiores riquezas naturais do Brasil.

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Com essa “açaímania” e a nova legislação vigente, que limita a exploração extrativista, abrem-se perspectivas de uso mais racional desse recurso natural, estabelecendo um incentivo a mais para a atividade de produção agrícola sustentável na região, com o cultivo desta preciosa palmeira, e de outras que produzem palmito de boa qualidade, como a pupunha por exemplo, que apresenta potencial muito bom para o incremento desta atividade agroindustrial.

Na exploração extrativista do açaí na Amazônia, são produzidos algo em torno de 200 mil toneladas de “vinho” e 150 mil toneladas de palmito, por ano, sendo quase esse total oriundo do Pará, onde ocorrem grandes concentrações naturais do açaí-de-touceira (Euterpe oleracea).

Neste contexto, em Rondônia, onde com frutos oriundos do extrativismo já se produz razoável quantidade de “vinho” que abastece o mercado local e dá margem a um excedente que é exportado para outras regiões do país, o cultivo do açaí surge como interessante opção de produção agrícola, mormente na Agricultura de base familiar.

Em Rondônia, as concentrações naturais de açaí são da espécie Euterpe precatoria, conhecida popularmente como açaí-do-amazonas, açaí-da-mata, açaí-de-terra-firme e açaí solteiro, pois, ao contrário da outra espécie de açaí-de-touceira de ocorrência natural predominante no Pará, não perfilha, é palmeira de estipe única. Esta espécie, que era muito comum nas matas da Amazônia Ocidental (Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima), e que sofreu nas últimas décadas uma forte pressão antrópica para exploração do palmito, vindo a ter ultimamente, com a demanda pelo “vinho”, uma exploração mais racional, possui uma característica muito interessante para a expansão do cultivo racionalizado do açaí visando a produção de “vinho”, que é a frutificação em época alternada com a espécie de açaí-de-touceira, que produz principalmente no 2º semestre (verão amazônico), enquanto que a produção do açaí-solteiro se dá principalmente no 1º semestre, mais ao início do ano (inverno amazônico). Então, no estabelecimento da cultura do açaí, é de todo interessante ter as duas espécies, e melhor ainda, obter também o açaí híbrido (resultante do cruzamento das duas espécies mencionadas), que é um trabalho de pesquisa que está na ordem do dia para ser feito com o açaí na Amazônia, obtendo uma palmeira que preservando as boas características presentes no açaí-solteiro, apresente perfilhamento.

No IAC – Instituto Agronômico de Campinas – em trabalho desenvolvido pela Dra. Marilene Bóvi, se fez o cruzamento do açaí-de-touceira (Euterpe oleracea) com o juçara (Euterpe edulis) - palmeira nativa no sudeste brasileiro, de estipe único, que produz o palmito mais bem conceituado no Brasil - para obtenção de um híbrido que mantendo as características de excepcionais qualidades do juçara, perfilhe, o que seria muito interessante para o manejo otimizado na cultura do palmito. Este trabalho foi bem sucedido e hoje já se dispõe do híbrido para atender aos interessados em seu cultivo. Neste trabalho o açaí-de-touceira funciona como planta receptora do pólen do juçara.

Do açaizeiro aproveita-se principalmente os frutos e o palmito com as finalidades mencionadas, mas, as sementes, os troncos e as folhas também são aproveitados pelas populações autóctones, para produção de adubo orgânico, em construções rurais, e artesanato, respectivamente. O açaizeiro é também palmeira muito ornamental, prestando-se admiravelmente para compor projetos paisagísticos.

No cultivo do açaí-solteiro (Euterpe precatoria) para produção de frutos, o espaçamento deve ser bem mais reduzido do que o recomendado para o açaí-de-touceira (5m x 5m, com 400 plantas/ha, manejando-se o plantio com 4 estipes por touceira, o que resulta numa densidade de 1600 estipes/ha). Para o açaí-solteiro deve ser adotado o espaçamento de 3m x 2m (1666 plantas/ha). Na exploração de palmito, para as duas espécies os espaçamentos devem ser menores que os indicados, buscando-se um maior adensamento dos plantios (no mínimo 2500 plantas/ha).

Na Amazônia, o açaizeiro que inicia produção de frutos aos 4 - 5 anos de idade, aos 6 - 7 anos produz de 4 a 8 cachos em diferentes estágios de desenvolvimento/estipe/ano, com peso médio de 2,5 kg/cacho, portanto, em torno de 10 a 20 toneladas de frutos por hectare/ano.

A seguir, são relacionadas algumas características específicas do açaí e alguns coeficientes técnicos, que devem ser levadas em conta na implantação e no beneficiamento da cultura:

 

  • composição do fruto: 83% de semente; 17% de polpa e casca.
  • sementes/kg: de 700 a 1000.
  • período de germinação: 30 a 60 dias.
  • o açaí é espécie monóica, ou seja, apresenta flores masculinas e femininas distintas em um mesmo cacho, mas, como estas flores se abem em tempos diferentes, a planta é, preferencialmente, alógama (de polinização cruzada, com inflorescências de outras plantas). Como não há autoincompatibilidade, pode ser fecundada com pólen de outra inflorescência da mesma planta, e, ocasionalmente, com pólen da mesma inflorescência.
  • período da floração à frutificação: 5 a 6 meses
  • produção da planta adulta (após 6 - 7 anos): em média 15 kg/estipe.
  • produtividade: em média 24 toneladas por hectare.
  • no caso do açaí-de-touceira, manejo de perfilhos/touceira: para produção de frutos = 4 ou 5; para palmito = 8 estipes.
  • rendimento: 20 litros de frutos (~ 15 kg) produz de 6 a 10 litros de “vinho” (dependendo da época de colheita e da densidade do “vinho” a ser comercializado).
  • renda para o produtor: aproximadamente 3 dólares ou 10 reais/lata de 20 litros de frutos (mais ou menos 15 Kg). Como 1 hectare, em média, produz 1000 latas de “20”, resulta renda em torno de 10 mil reais/ha.
  • preço do “vinho” de consistência média ao consumidor no comércio varejista de Porto Velho: 1 dólar ou 3 reais/litro.
  • relação fruto: água no preparo do vinho de consistência média de açaí: 3 por 1, ou seja, para 3 litros de frutos, 1 litro de água, que resulta aproximadamente em 1 litro de vinho.
  • consumo de vinho de açaí em Belém-PA: 180 mil litros/dia.
  • valor energético do açaí: de 80 a 265 calorias/100 g.
  • a polpa do açaí é rica em ferro (11mg/100g), fósforo (58mg/100g), e vit. B1 (0,36mg/100g); mas, quando se toma o “vinho” estes valores baixam devido à diluição em água.
  • níveis de proteína, lipídios e cálcio, da polpa do açaí são aproximados ao leite bovino; todavia a proteína do leite é de melhor qualidade.

Obs.: Para efeito de facilidade no armazenamento e transporte, o “vinho” ou a polpa de açaí, pode ser transformado em pó, para ser reconstituído na hora de consumir, na proporção de 60 g de pó para 1 litro de água. A Embrapa Amazônia Ocidental (o antigo CPATU), com sede em Belém-PA, dispõe desta tecnologia para atender a quem se interessar por este tipo de produto, mas o pesquisador responsável pelo trabalho avisa que o produto (obtido com a utilização do aparelho “spray dryer”) não mantém fielmente as características do “vinho” de açaí in natura, e um outro processo (através do freeze dryer) em que as características são mantidas, porque o “vinho” não é submetido a altas temperaturas, ocorrendo a liofilização à baixas temperaturas, o equipamento é muito caro, tornando no momento a tecnologia inviável para adoção.

 

Literatura consultada :

A cultura do açaí. Oscar Nogueira Lameira e outros. Embrapa – SPI / CPAF Amazônia Oriental. Coleção Plantar : 26 . 1995. 50 p.

Biodiversidade Amazônica : exemplos e estratégias de utilização. Jason W. Clay; Paulo de T. B. Sampaio; Charles R. Clement. INPA / SEBRAE. Programa de desenvolvimento empresarial e tecnológico. Manaus. 1999. p 44 – 55.

Biologia floral e sistema reprodutivo da espécie Euterpe espiritosantensis Fernandes. Marilene Bóvi e outros.1993.

Floral biology and reproductive system of Euterpe espiritosantensis Fernandes. Marilene Bóvi e outros. Acta Horticulture, Wagningen, 360 (8) : 41 – 57, 1994.

Frutales y hortalizas promisorios de la Amazonía. Hugo Villachica e outros. 1996. p 33-42.

Frutas comestíveis da Amazônia. Paulo B. Cavalcante. 5ª edição. Belém. CNPq : Museu Paraense Emílio Goeldi. 1991. p 25 - 28.

Fruteiras da Amazônia. Aparecida das Graças Claret de Souza e outros. Embrapa / SPI. Manaus. Embrapa CPAA, 1986. p 15 - 18.

Fruticultura tropical: o açaizeiro. Batista Benito Gabriel Calzavara. Apostilla. Belem-PA, 1986. 8 p.

Obtenção de açaí desidratado. Célio Francisco Marques de Melo; Wilson Carvalho de Melo; Sérgio de Mello Alves . Belém. 1998. Embrapa CPATU. Boletim de Pesquisa, 92. 13 p.

Plantio de açaizeiros. José Antonio Leite de Queiroz; Silas Mochiutti. Macapá-AP. 2001 Embrapa Amapá. Comunicado técnico 55. 8 p.

Produtos Potenciais da Amazônia. Açaí. MMA/ SEBRAE. Brasília. 1995. 51p.

 

Por George Duarte Ribeiro - Eng. Agrônomo, M. Sc. em Sistemas Agroflorestais, pesquisador da Embrapa Rondônia.



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